Os portugueses e paulistas se embrenharam pelo sertão mineiro usando os caminhos naturais dos índios, em busca do ouro guardado nos vales, aluviões e encostas. Os mais ousados venciam os índios e plantavam as vilas. Entre os anos de 1590 e 1602, os bandeirantes paulistas saíam da Vila de São Paulo - SP, seguiam para Taubaté - SP, depois entravam em Minas Gerais por Passa Vinte, seguindo para Bom Jardim, Serra de Ibitipoca, Borda do Campo, Carandaí e assim chegavam na Paragem dos Cataguases (Catauá) e logo após na Ressaca.
A história da Comunidade da Ressaca começa com o personagem Bartolomeu da Cunha Gago, bandeirante de Taubaté - SP e filho de outro bandeirante de mesmo nome. Bartolomeu foi Capitão-mor da tropa destinada ao território das Minas Gerais para descobrimentos de ouro, prata e diamantes em 1680. Na década de 1690, Bartolomeu e sua tropa passaram pela região onde hoje encontra-se a Ressaca.
Os bandeirantes faziam suas viagens no sertão de Minas entre os meses de abril e setembro, porém no mês de outubro, quando se inicia o período chuvoso, eles se assentavam e formavam vilas, plantando grãos e cuidando do gado até o fim do "tempo das águas". Em um local hoje pertencente à Antônio Carlos Chaves de Resende, à beira de um curso d'água, próximo ao encontro de dois córregos, Bartolomeu fixou residência e ali construiu uma casa de pedra e se dedicou ao trabalho do campo. Nesse local onde os dois córregos se encontram, um acidente geográfico faz com que as águas se comportassem como que uma ressaca do mar: daí a origem do nome Ressaca.
Ele era sobrinho de Tomé Portes del-Rei, considerado fundador de São João Del Rei. O Arraial Novo do Rio das Mortes, que deu origem à cidade, foi fundado entre 1704 e 1705. Porém, a região já era ocupada desde 1701 quando Tomé se estabeleceu na região do Porto Real de Passagem. Dessa forma, pode-se considerar que a Ressaca é mais antiga que São João del Rei.
No ano de 1920, João Crisóstomo de Souza Campos foi a cavalo na Arquidiocese de Mariana e lá encontrou um documento em que dizia que a Ermida do Bom Jesus dos Aflitos foi construída por Bartolomeu da Cunha Gago no ano de 1695 e, além disso, que ele teria doado certa quantidade de terras em volta da ermida e que ela estaria no centro do terreno.
A antiga Ermida possuía duas sacristias, à direita e à esquerda; um alpendre (varanda), característica de templos católicos do século XVII. Debaixo do alpendre ficavam os fiéis, uma vez que dentro da ermida havia espaço somente para o padre. No alpendre também existia um pequeno cemitério, no qual teria sido enterrada a irmã do inconfidente Jose de Resende Costa.
De acordo com os livros de tombo da Paroquia de Santo Antônio, no ano de 1919 a ermida passou por um retoque completo, patrocinado por José Francisco da Costa.
Ermida do Senhor Jesus dos Aflitos - construída em 1695.
(Foto de Bernardo Martins - 19 de abril de 1938.)
A Ressaca era passagem para o oeste brasileiro, para os bandeirantes que seguiam para Goiás e Mato Grosso. Houve mineração de aluvião nas terras da Ressaca, existindo também o Fisco do Ouro, onde era cobrado o Quinto.
O Fisco do Ouro foi instalado próximo à ermida, e era destinado a cobrança do Quinto do ouro que vinha do oeste, Goiás e Mato Grosso. Da Ressaca, o ouro seguia para a Vila de São Paulo. Atualmente, existe uma região na Ressaca que leva o nome de Fisco, referência ao Fisco do Ouro, porém não no mesmo local.
As sesmarias eram doações de terras feitas pela Coroa portuguesa aos seus agentes e colonos no processo de "ocupação" da América portuguesa. O Instituto das Sesmarias foi a política de colonização posta em prática na América portuguesa no reinado de D. João III, momento de criação das capitanias hereditárias.
Diversas sesmarias comprovam a antiguidade do povoado da Ressaca. O Catálogo de Sesmarias presente no acervo do Arquivo público Mineiro - 1988 cita 6 sesmarias referindo a Ressaca.
Pedra de Semaria localizada na Ressaca. Registro feito por Ladislau Júnio.
(Foto de 16/10/2022)
Fazenda da Ressaca. Proprietário na época desta foto:
João Crisóstomo de Sousa Campos
(Foto de 20/04/1931)
A Velha Fazenda da Ressaca era toda de pedras brutas e remonta do ano de 1590 ou 1600. Estava no caminho natural para Goiás. Em 1764 o Capitão Joaquim Ferreira da Silva, casado com Ana Joaquina de Rezende a comprou. Após o falecimento da esposa, o capitão se casou novamente e vendeu parte da fazenda para seu cunhado Joaquim José de Rezende - o solteiro. Em 1821 morreu Joaquim, que era irmão do Capitão Inconfidente José de Rezende Costa, tendo ambos nascidos na na Fazendo do Engenho dos Cataguases.
Ficando a herança de Joaquim para seus sobrinhos, estes venderam a fazenda para Manoel Gonsalves de Araújo. Em 1838, Ana Maria do Terço arrematou a fazenda, construindo assim uma nova sede, fazendo modificações e aumentos. Depois de Ana Maria, a fazenda passou para posse de seus filhos solteiros, porém, após fraude no seu testamento, a fazenda ficou para seu sobrinho neto João Crisóstomo de Souza Campos.
Em 1938 a fazenda foi comprada por Ernesto Ferreira Borges e, posteriormente por Antônio Carlos Chaves de Resende. Hoje infelizmente a fazenda não existe mais.
Pelos caminhos da Ressaca já passaram e, alguns até se hospedaram na antiga Fazenda da Ressaca: Fernão Dias Paes, Baltazar da Silveira, o Conde de Assumar, o Tiradentes, José de Resende Costa, Dom Pedro I, Dom Pedro II e a Imperatriz.
Em 1918, foi publicado o 6º Volume do Annuario de Minas Geraes, fundado e dirigido pelo Dr. Nelsom de Senna. Nele era descrito a história e estatísticas de 178 municípios mineiros, dentre eles Lagoa Dourada.
Segundo o Annuario, o maior povoado do Município de Lagoa Dourada era a Ressaca, com 100 fogos (casas), sendo que a cidade possuía 325 fogos.
Devido ao grande número de pessoas residentes no povoado, no dia 19 de abril de 1938 foi dado início a demolição da varanda e parede frontal da primitiva ermida para ampliação, sendo elevada à capela.
A ampliação foi patrocinada pela Provedora Snrª D. Maria Campos Maia, esposa do Snr. Vicente Ferreira Lima.
É possível notar que a antiga ermida foi preservada, sendo construída a ampliação logo em frente. Na foto está presente o Monsenhor José Hugo de Resende Maia encostado ao muro.
(Foto de 23 de abril de 1971)
A Capela herdava as duas sacristias, à direita e à esquerda, da antiga ermida, além do altar-mor. Na ampliação, foi construído coro, dois altares laterais, arco do cruzeiro e assoalho e forro de madeira.
No ano de 1968, o então Padre José Hugo de Resende Maia convocou os moradores para decidir o que ia de ser feito com a capela que estava com o lado direito em estado precário e risco de cair. Segundo relatos, Manoel (Lico) teve a ideia de construir a nova capela ao lado da antiga, uma vez que ele gostaria de conservar o patrimônio. Ainda que um formigueiro ameaçava derrubar a parede direita e que a sacristia do lado esquerdo estava interditada, pois o assoalho estava todo carunchado e podre. As formigas andavam sobre o assoalho e retiravam cada vez mais terra. Ficou decidida a demolição total da Capela para a construção de uma nova, uma vez que necessitava de muitos reparos.
Em março de 1971, o Bispo Revmo. Dom Delfim Ribeiro Guedes deu a licença ao pároco Padre José Hugo para a construção da nova capela. Foi decidido então seguir o traçado (desenho) da Capela das Bandeirinhas, com uma sacristia e anexando também a Casa Paroquial, com quarto, banheiro sala-copa e cozinha com fogão à gás. O encarregado geral da obra foi José Alfredo da Costa e a demolição iniciou em 23 de abril de 1971.
Aos 16 de maio de 1971 foi realizada a última missa na antiga capela, seguida de uma "praça de gado" pró-construção da nova capela, sendo arrecadado Cr$6.000,00. A construção da nova Capela começou em 14 de junho de 1971, "no mesmo lugar da antiga, mas já em ruínas; dela nada se aproveitou, senão as pedras [...]. Ficou uma construção sólida, bem acabada com azulejos e pedras à vista, e ficou sendo a capela mais moderna e mais bonitinha de toda a paróquia". - registro do livro de tombo da Paroquia de Santo Antônio.
Da antiga capela, restam as imagens históricas, sinos, paramentos e fragmentos do retábulo do altar mor e poucas peças dos altares laterais. Várias peças foram vendidas para custear a construção da nova capela. No dia 10 de dezembro de 1972, após o fim das obras, era benta a nova e atual capela pelo Revmo. Bispo Dom José Alves da Trindade, lagoense e bispo de Montes Claros. O custo da obra foi de Cr$12.000,00.
Ao decorrer dos séculos, algum fato ocorreu e a imagem de Nossa Senhora das Dores foi erroneamente nomeada como Nossa Senhora da Glória, sendo considerada padroeira da comunidade juntamente com o Senhor dos Aflitos. Possivelmente o fato ocorreu pois, segundo registros nos livros de tombo da Paroquia de Nossa Senhora da Conceição de Prados, dá-se a imaginar que na antiga Fazenda da Ressaca havia uma Capela de Nossa Senhora da Glória e, depois da sua demolição, a devoção foi transferida para a Capela do Senhor dos Aflitos.
A existência dessa capela dá-se pelo registro histórico da 15ª filha do português João de Rezende Costa:
Anna Joaquina de Rezende - batizada em 17-02-1749 em Prados, onde casou em 22-01-1766 na Ermida do Reverendo João de Rezende Costa com o português Tenente Joaquim Ferreira da Silva. Moravam na Fazenda da Ressaca, em Lagoa Dourada. Faleceu em 23-07-1767 com testamento na fazenda Ressaca e sepultada na Capela da Nossa Senhora da Glória da fazenda, filial de Prados. Deixou uma única filha;
A Ermida da Ressaca era dedicada somente ao Bom Jesus dos Aflitos, como pode ser verificado no registro abaixo:
B7: Prados, Minas Gerais (e capelas filiadas) - casamentos -. Ermida do Sr. Jesus dos Aflitos, Aplicação de Lagoa Dourada aos 30-07-1820 Manoel Bernardes de Moira, f.l. de Ignacio de Andrade e Moira, já falecido, e Anna Maria da Assumpção = Maria Bernardes de Moura, f.l. de Antonio Bernardes de Moura e de [---danificado---} Costa Ferreira. Nts/bts capela de Sto. Antonio da Lagoa.
Segundo a tradição popular, a Fazenda da Ressaca não possuía capela, sendo a Ermida pertencente a Fazenda. Porém, a ermida foi erguida e seu terreno doado por Bartolomeu da Cunha Gago; dessa forma, outra inconsistência é observada e a história ainda reserva descobertas para a comunidade da Ressaca.
As diferenças das duas imagens é bem singular: Nossa Senhora da Glória possui cabeças de anjos debaixo dos pés e o menino Jesus nos braços, enquanto a Senhora das Dores possui uma mão sob o peito e um braço estendido para a cruz do filho que estava em aflição. A imagem de Nossa Senhora das Dores da Ressaca foi esculpida em referência ao Bom Jesus dos Aflitos, uma vez que possui uma coroa de prata com 5 estrelas, representando a quinta dor, a dor de assistir à morte e aflição de Jesus, com a alma e coração transpassados com as mais cruéis dores.
Projeto descritivo de restauro da Capela do Senhor Bom Jesus dos Aflitos
Comunidade rural da Ressaca, município de Lagoa Dourada
Resumo
A Capela do Senhor Bom Jesus dos Aflitos é um patrimônio histórico e religioso da comunidade rural da Ressaca, no município de Lagoa Dourada. Infelizmente, o tempo e a falta de manutenção adequada têm causado danos e desgaste na estrutura da capela, colocando em risco sua preservação.
Com o objetivo de garantir a conservação desse importante monumento, foi lançado um projeto para captação de recursos para reforma, recuperação e restauro da Capela do Senhor Bom Jesus dos Aflitos. A iniciativa busca envolver a comunidade local e demais interessados na preservação da história e cultura da região.
Os recursos captados serão destinados à realização de obras de restauro e recuperação da estrutura da capela, bem como à aquisição de materiais necessários para sua conservação e manutenção. Além disso, o projeto visa promover a valorização do patrimônio histórico e cultural da região, estimulando a preservação de outros monumentos e construções locais.
Com a colaboração da população e de demais interessados, a Capela do Senhor Bom Jesus dos Aflitos poderá ser restaurada e preservada para as gerações futuras, mantendo viva a história e a tradição da comunidade da Ressaca.
Infelizmente, devido à pandemia do COVID-19, a nova Capela teve que ser fechada durante um período de tempo sem qualquer manutenção e somada aos seus mais de 50 anos de história, a edificação começou a apresentar sinais de desgaste e risco a segurança e, por isso, foi decidido que era necessário realizar uma reforma emergencial. Contudo, os responsáveis pela capela não querem apenas consertar os danos recentes, mas também resgatar as características originais da construção.
Para isso, foram realizados diversos debates e estudos para entender como a capela era originalmente e quais eram seus elementos mais importantes. Com base nesses dados, foi definido um projeto de restauração que contempla tanto a correção dos problemas atuais como a recuperação dos elementos arquitetônicos originais. Além disso, a reforma também prevê ações para resgatar a história da capela e sua importância para a comunidade. Assim, estão sendo realizadas atividades como exposições e divulgações nas redes sociais para que as pessoas pudessem conhecer mais sobre a história da construção e sobre a sua importância para a região.
Com essas ações, a capela poderá ser restaurada de forma a preservar suas características originais e a sua importância para a comunidade local. A Associação Comunitária da Ressaca tem trabalhado incansavelmente para angariar recursos e encontrar parceiros que possam contribuir para a restauração da capela e para a realização de atividades que promovam a cultura e a memória da comunidade. O objetivo é transformar a capela em um espaço de convivência e celebração, onde as crianças possam aprender sobre sua história e os moradores possam se reunir para celebrar suas tradições.
Realizar pesquisas históricas e utilizar projetos desenvolvidos por profissionais é uma estratégia fundamental da nossa equipe para garantir a qualidade e confiabilidade do trabalho. Isso porque, ao basear-se em fontes confiáveis e especialistas, tem-se um embasamento sólido e consistente para executar o projeto. Além disso, essa abordagem garante um trabalho de qualidade e confiabilidade, demonstrando responsabilidade e comprometimento com os resultados a serem apresentados.
A restauração da capela é um trabalho complexo e de longo prazo, mas a Associação Comunitária da Ressaca está determinada a preservar esse importante patrimônio histórico e cultural. Com o apoio da comunidade e de parceiros comprometidos com a preservação da cultura e da história local, a capela da Ressaca pode voltar a ser um ponto de referência para a região e um orgulho para todos os moradores.
Pesquisa realizada por Ladislau Júnio de Resende Melo
Fontes:
Livros e Artigos:
- "A música na história de Minas colonial" / M. Conceição Rezende. 1989
- "REMEDIADOS SENHORES: pequenos escravistas na freguesia de São José do Rio das Mortes" / Carlos de Oliveira Malaquias. 2014
- "Por minha letra e sinal" / Maria de Santos Duarte de Oliveira.
- Livros de Tombo da Paroquia de Santo Antonio de Lagoa Dourada.
Entrevistas:
- José Campos de Resende (13 de outubro de 2022).
Sites:
- Barros Brito, acesso em 10 de outubro de 2022.
- PROJETO COMPARTILHAR, acesso em 2 de outubro de 2022.
- Capitão Domingos, acesso em 2 de outubro de 2022.
- Wikipédia, acesso em 2 de outubro de 2022.
- Olimpíada de História, acesso em 2 de outubro de 2022.
- Jornal das Lajes, acesso em 3 de outubro de 2022.
- Atlas Digital da América Lusa, acesso em 10 de outubro de 2022.