Igreja do Senhor Bom Jesus de Matosinhos em sua reabertura em dezembro de 2023 após restauração.
O patrimônio arquitetônico e artístico das Minas Gerais constitui um dos mais densos e significativos testemunhos da ocupação territorial e da vida religiosa no Brasil colonial e imperial. No coração da região do Campo das Vertentes, o município de Lagoa Dourada abriga um monumento que, embora compartilhe a invocação com grandes santuários de renome mundial, guarda uma trajetória singular de resiliência, fé e redescoberta acadêmica: a Igreja do Senhor Bom Jesus de Matosinhos. Este relatório técnico e histórico propõe uma análise exaustiva da referida edificação, abordando desde suas raízes setecentistas até os recentes processos de restauração que revelaram a existência de um artífice anônimo de importância fundamental para a arte sacra mineira.
A trajetória desta igreja não é linear; ela é marcada por episódios de destruição traumática, reconstrução arquitetônica e uma contínua renovação do sentimento comunitário. Ao contrário de outros templos que preservam sua integridade física original, a Igreja do Bom Jesus de Lagoa Dourada é um palimpsesto de intervenções que refletem as mudanças econômicas e os desafios de preservação enfrentados pelas pequenas comunidades do interior mineiro.1
A história da Igreja do Senhor Bom Jesus de Matosinhos está intrinsecamente ligada à fundação do próprio arraial que deu origem à cidade. O povoamento da região iniciou-se nas primeiras décadas do século XVIII, quando bandeiras exploradoras, como a de Oliveira Leitão, descobriram jazidas de ouro de aluvião em uma pequena lagoa local.3 A abundância do metal precioso refletido nas águas valeu ao local o nome de "Alagoa Dourada", designação que posteriormente se consolidaria como Lagoa Dourada.
O desenvolvimento urbano do arraial seguiu o padrão típico das cidades mineradoras: as habitações foram subindo as encostas a partir da lagoa original, e a vida social passou a gravitar em torno das atividades das irmandades e confrarias. Em 1717, a região já se apresentava bem povoada, e a necessidade de espaços sagrados para o cumprimento dos preceitos religiosos tornou-se premente.3 Enquanto a Igreja Matriz de Santo Antônio ocupava o centro administrativo e religioso do arraial, a Capela do Senhor Bom Jesus de Matosinhos surgiu em um local de destaque topográfico, em consonância com a tradição de erigir santuários dedicados ao Cristo sofredor em colinas que evocassem o Monte Calvário.3
De acordo com registros históricos e análises da Chorographia do Município de Diamantina, a edificação primitiva teria sido construída entre a última década do século XVIII e a primeira do século XIX.1 Esse período coincide com o amadurecimento das artes plásticas em Minas Gerais, quando o estilo Barroco dava lugar ao Rococó, mais leve e ornamentado, e quando as oficinas de escultores e entalhadores atingiam o seu apogeu técnico e estético.
A compreensão da relevância desta igreja exige uma incursão na genealogia da própria devoção ao Senhor Bom Jesus de Matosinhos. Esta tradição remonta a Portugal, especificamente à cidade de Matosinhos, próxima ao Porto. Segundo a lenda, uma imagem de Jesus crucificado, esculpida por Nicodemos (testemunha ocular da Paixão), teria sido lançada ao mar e aportado milagrosamente na Praia de Espinheiro no ano de 124.6
A transposição dessa devoção para o Brasil acompanhou os fluxos migratórios de portugueses do norte, que trouxeram consigo a fé no "Cristo de Matosinhos". Em Minas Gerais, essa devoção encontrou um terreno fértil devido à identificação da população mineradora com a figura do Cristo sofredor e resiliente. O modelo arquitetônico e devocional mais influente na colônia foi o Santuário de Congonhas do Campo, iniciado em 1757 por Feliciano Mendes, que buscou replicar os "sacro montes" europeus como o Bom Jesus do Monte em Braga.8
Em Lagoa Dourada, a implantação da capela seguiu este modelo cenográfico. A igreja localiza-se no topo de uma elevação, e o trajeto de ascensão até o templo funciona como uma metáfora da Via Crucis.4 Embora de proporções menores se comparada à basílica de Congonhas, a igreja de Lagoa Dourada cumpre a mesma função de pórtico para a experiência do sagrado, integrando arquitetura e paisagem de forma a induzir o fiel à contemplação e à penitência.
Capela do Bom Jesus em janeiro de 1984.
Capela no alto do morro, sem povoamento por perto. Foto dos anos 1930.
A história da capela em Lagoa Dourada começa com a iniciativa do português Manuel Ribeiro dos Santos, natural de Coimbra. Por volta de 1750-1760, Manuel ergueu uma primitiva capela de madeira e taipa à beira do caminho que ligava o arraial às vilas de São João e São José.
Mais do que um templo, Manuel criou uma estrutura de acolhimento. Construiu casas ao redor da ermida para servir de morada ao capelão e para abrigar os romeiros que vinham de longe para as festividades do Jubileu do Bom Jesus, estabelecendo ali um ponto de fé e hospitalidade.
Registos de 1854 revelam a riqueza do acervo que a capela possuía, incluindo imagens de grande porte do Calvário (Santa Madalena, São João Evangelista e Nossa Senhora).
Um ponto curioso destacado por Olinto Rodrigues é o destino de um arcaz (móvel de sacristia) de grande valor artístico. Pesquisas indicam que este móvel, originalmente de Lagoa Dourada, integra hoje o acervo do Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro, evidenciando a importância da talha produzida para esta capela.
Diferente de outros templos mineiros que mantêm sua estrutura física original desde o século XVIII, a Igreja do Senhor Bom Jesus de Matosinhos de Lagoa Dourada passou por um processo de destruição e renascimento que define sua fisionomia atual. No início do século XX, a antiga estrutura de pau a pique encontrava-se em ruínas. Em 1905, a decisão foi drástica: a demolição completa para dar lugar a um novo edifício. Todas as peças sacras e artísticas foram guardadas nas salas laterais da Igreja Matriz.
Após a demoliçao, uma nova estrutura foi levantada m 1905, mas problemas graves de execução técnica levaram a construção ao colapso. A nova igreja, mal construída, começou a apresentar rachaduras e riscos estruturais, o que forçou o seu fechamento por ordem das autoridades eclesiásticas e civis.4 Esta fase de instabilidade reflete os desafios enfrentados por muitas comunidades mineiras no início do século XX: a transição entre as técnicas construtivas tradicionais (como a taipa e o adobe) e os novos materiais, muitas vezes sem a devida perícia técnica para garantir a solidez de grandes vãos e torres.
A superação do trauma de 1905 e da falha estrutural subsequente ocorreu em 30 de maio de 1911, com o início de uma nova construção sob a égide do empreiteiro Augusto Buzatti.2 Buzatti foi responsável por conferir à igreja a volumetria e a estabilidade que observamos hoje. A arquitetura deste período, embora busque referências na tradição religiosa mineira, já incorpora uma linguagem mais eclética, típica do início do período republicano, mas mantendo a sobriedade necessária a um templo de peregrinação.
A fachada atual apresenta uma composição simples e equilibrada, com torres sineiras que flanqueiam o corpo central. A localização estratégica no alto do morro foi mantida, preservando a relação de visibilidade e ascendência sobre o arraial.4 Esta reconstrução foi um marco para a comunidade de Lagoa Dourada, simbolizando a recuperação da dignidade devocional após anos de templo fechado ou em ruínas.
Um dos aspectos mais fascinantes e academicamente relevantes da Igreja do Senhor Bom Jesus de Matosinhos não reside apenas em sua arquitetura, mas no acervo de imaginária sacra que ela abriga. Por décadas, a autoria das imagens do retábulo-mor e de outras peças da paróquia permaneceu envolta em anonimato. Foi apenas no início do século XXI que pesquisas sistemáticas revelaram a existência de um artífice singular, batizado por especialistas como o "Mestre de Lagoa Dourada".10
A identificação deste mestre foi fruto do trabalho do restaurador e pesquisador Carlos Magno de Araújo. Ao realizar intervenções de manutenção e restauro na imaginária de Lagoa Dourada, Araújo percebeu que um grupo significativo de peças apresentava características estilísticas recorrentes e uma técnica de escultura muito específica, que se distanciava do estilo dos mestres mais conhecidos da região, como Aleijadinho ou Francisco de Lima Cerqueira.10
A investigação revelou que este "Mestre" atuou provavelmente na primeira metade do século XVIII, e que suas obras possuem uma qualidade técnica excepcional, muitas vezes escondida sob camadas de repintura acumuladas ao longo de séculos.10 Através de sondagens estratigráficas e análises formais, foi possível agrupar um conjunto de esculturas que compartilham o mesmo "DNA" artístico, sendo a Igreja de Bom Jesus de Matosinhos o local que abriga sua maior e mais importante obra: o conjunto do retábulo-mor e as imagens de vulto.10
O estilo do Mestre de Lagoa Dourada é caracterizado por um tratamento vigoroso da madeira, com proporções equilibradas e uma expressividade que busca a empatia imediata do devoto. Diferente da dramaticidade exacerbada do barroco tardio, suas peças parecem possuir uma serenidade contida, típica de uma fase mais precoce da arte mineira ou de uma interpretação regional única.10
Além da igreja do Bom Jesus, traços deste artista foram identificados em outras localidades do Campo das Vertentes e arredores, o que sugere que ele foi um artífice itinerante de grande prestígio em sua época.
Esta descoberta é de suma importância para a história da arte brasileira, pois desafia a visão de que a arte colonial mineira era centrada apenas em poucos nomes famosos. Ela revela a existência de "escolas" regionais e de mestres talentosos que, apesar do anonimato documental, deixaram uma marca indelével na paisagem cultural do estado.13
Para o historiador Olinto Rodrigues, a qualidade da talha é excepcional, comparando-se apenas às grandes matrizes da região, como as de Tiradentes e São João del-Rei.
A Igreja do Senhor Bom Jesus de Matosinhos não deve ser analisada como um objeto isolado, mas como parte de um complexo devocional que inclui o seu entorno imediato. Um dos elementos mais distintivos de sua implantação são as muretas de tijolinhos que acompanham a subida para o templo.2
Diferente do Santuário de Congonhas, onde os Passos da Paixão são abrigados em capelas autônomas de pedra e cal 8, em Lagoa Dourada eles foram concebidos de forma mais integrada ao percurso de pedestres. Aplicados em muretas graciosas, os painéis que representam os passos da Via Sacra criam uma narrativa visual que prepara o fiel para o encontro com a imagem principal do Bom Jesus no altar-mor.2
Essa solução arquitetônica, revitalizada em intervenções recentes, demonstra uma adaptação inteligente do modelo de peregrinação às proporções e recursos da cidade. O uso do tijolo aparente nas muretas confere um aspecto rústico e acolhedor, contrastando com a brancura das paredes da igreja e integrando-se organicamente à paisagem urbana da colina.2
O interior da igreja, embora reformulado na reconstrução de 1911, preserva o núcleo sagrado que motivou o seu tombamento pelo Estado de Minas Gerais em 1977.1 O decreto n.° 18.531 reconheceu não apenas a importância da edificação, mas especificamente a sua "imaginária", destacando-se as seguintes peças de valor inestimável:
Cristo Crucificado: Imagem central de forte apelo devocional.
Nossa Senhora das Dores: Representada com indumentária de "senhora" do período, com pregas contidas.11
Santa Maria Madalena: Parte integrante da cena do Calvário.
São João Evangelista: Figura que completa o grupo escultórico aos pés da cruz.
Este conjunto permaneceu por muitos anos em estado vulnerável, com a igreja servindo inclusive como depósito, sofrendo com infiltrações e cupins até o restauro minucioso realizado por Carlos Magno de Araújo, que recuperou a policromia original escondida sob camadas de repintura.10
O retábulo-mor, identificado como obra do Mestre de Lagoa Dourada, serve como o trono para estas imagens. A restauração concluída no final de 2023 foi vital para reverter processos de degradação estrutural no trono do altar, que sofria com infiltrações e ataques de xilófagos.10
A preservação da Igreja do Senhor Bom Jesus de Matosinhos é garantida por uma rede de proteção legal que envolve as esferas estadual e municipal. Esse suporte é fundamental para a captação de recursos e para a orientação técnica de intervenções.
Em 2004, o Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (IEPHA/MG) oficializou o tombamento da igreja e de seu acervo imaginário.1 Este reconhecimento estadual coloca o templo em um patamar de importância que transcende os limites do município, integrando-o ao conjunto de bens que definem a identidade cultural mineira.
No âmbito municipal, a igreja é protegida pelo Conselho Municipal do Patrimônio Cultural de Lagoa Dourada. O município mantém um inventário atualizado de seus bens culturais, com atas e documentos que registram o acompanhamento constante do estado de conservação do templo.14 Essa gestão local é crucial, pois permite uma resposta rápida a problemas cotidianos e mantém a comunidade engajada na proteção de seu patrimônio.
Recentemente, a igreja passou por um processo significativo de reforma e restauração, sendo reaberta ao público no final de 2023.2 Esta intervenção não foi apenas estética, mas estrutural, visando sanar problemas que ameaçavam a integridade do edifício e de suas obras de arte. A revitalização do espaço devolveu à cidade um de seus pontos turísticos e religiosos mais emblemáticos.2
A restauração foi acompanhada por iniciativas de educação patrimonial, como a exposição "Por Suas Chagas Fomos Curados", iniciativa da Venerável Confraria do Senhor Bom Jesus dos Passos, que buscou aproximar a população da história da devoção e do valor artístico das peças restauradas.2 Tais ações são estratégicas para garantir que o patrimônio seja percebido não como algo "velho", mas como uma herança viva que define o pertencimento da comunidade.
O texto do jornal "A Cruzada" apresenta um relato detalhado sobre a importância espiritual e histórica do Jubileu do Senhor Bom Jesus para Lagoa Dourada.
Tradição Secular: Desde tempos remotos, a cidade festeja o Jubileu com "raro brilho", atraindo uma concorrência crescente de católicos tanto do município quanto de "paragens longínquas".
Ambiente Festivo: Durante as celebrações, a cidade assume um aspecto festivo, marcado pela fé e pela presença de milhares de fiéis.
A Palavra Sacra: O evento é caracterizado por "eloquentes oradores sacros" que pregam sobre os mistérios da redenção, guiando os devotos em sua jornada espiritual.
O Templo Antigo: Originalmente, o Jubileu ocorria em um templo de "veneráveis tradições" no alto do bairro Bom Jesus, mas este foi "vandalicamente" demolido em 1905.
Problemas Estruturais: Uma nova construção foi erguida no local, porém sem a técnica e solidez necessárias, o que resultou em seu rápido arruinamento e no deslocamento dos atos do Jubileu para a Igreja Matriz.
O Projeto de Remodelação: Na época do jornal, uma comissão foi formada para reconstruir a igreja, visando dotá-la de uma torre de grande altura encimada pela imagem do Cristo Redentor.
Símbolo de Identidade: O texto apela aos moradores ("Avante, Lagoenses!") para que contribuam, tratando a obra não apenas como um dever religioso, mas como um ato de patriotismo e embelezamento urbano.
Confira abaixo a transcrissão do trecho do jornal:
"Desde tempos remótos, Lagôa Dourada tem festejado, com raro brilho, o Jubileu de Senhor Bom Jesus, sempre com crescente concurrência de católicos do município e de paragens longinquas, dando a esta cidade um aspecto festivo.
As solenidades próprias do Jubileu realizavam-se no templo antigo e de veneraveis tradições, erigido no alto do bairro «Bom Jesus», onde milhares de almas humanas ouviam, contritas e cheias de fé, a palavra de eloquentes oradores sacros a exalçarem os divinos mistérios da redenção e a avivarem o trilho que leva o homem á sua verdadeira Pátria.
Como, porém, o velho templo, que foi demolido vandalicamente, em 1905, e em seu logar foi construido um outro, sem solidez e devida técnica, que começou logo a ruir, passaram os piedosos atos do Jubileu a se efetivarem na Igreja Matriz.
Esse templo lá foi ficando em completo abandono embora, cheio de obras artísticas de grande relêvo, e simbolisava mais uma estátua erigida a uma grande vítima da criminosa ingratidão e indiferença humana, como sempre foi Aquele a quem é dedicado.
Um raio de luz veio, contudo, iluminar os corações dos habitantes de Lagôa Dourada, tocando-lhes o sentimento de piedade e de patriotismo, lembrando-lhes a necessidade de olhar com carinho para aquela obra que perpetúa em suas colunas soberbas, tão honrosas tradições, nem só de carater religioso, como símbolo de fé, como de carater patriótico pelo embelezamento que empresta áquêle bairro aprazivel.
E assim que se organizou entre elementos de maior projeção local, uma comissão encarregada da reconstrução ou remodelação do templo, cujo intuito, apenas chegou ao conhecimento do público, encontrou franco amparo e acolhida, o que mostra que tal idéa era um anceio latente em todos os corações.
É com a maior das alegrias que vemos iniciados os trabalhos da reconstrução da Igreja do Senhor Bom Jesus, para cujo término, das nossas humildes colunas, apelamos para os bons Lagoenses, pedindo-lhes não desfalecerem no louvabilíssimo intento de emprestar a essa grande obra a sua valiosa cooperação, considerando-se que a remodelação projetada tende a dotar a Igreja de uma torre, com a maior altura aconselhavel, na qual encime a Imagem do Cristo Redentor, além de outros embelezamentos de grande importância.
Avante, Lagoenses !"
A Igreja do Senhor Bom Jesus de Matosinhos não é apenas um depósito de arte sacra; ela é o epicentro de manifestações de fé que moldam o calendário social de Lagoa Dourada. A maior destas expressões era, sem dúvida, o Jubileu.
A celebração do Jubileu em honra ao Senhor Bom Jesus é uma tradição secular em Minas Gerais. Em cidades como Congonhas e Conceição do Mato Dentro, estas festas ocorrem desde o século XVIII, atraindo milhares de romeiros que buscam indulgências e cura espiritual.15 Em Lagoa Dourada, a festa do Bom Jesus de Matosinhos tinha o caráter de uma grande romaria regional.
O Jubileu caracteriza-se por uma intensa programação religiosa, que incluia novenas, missas diárias, confissões e procissões solenes. Socialmente, o evento transformava a cidade, com a instalação de barracas, comércio ambulante e um fluxo turístico que movimentava a economia local.17 Era um momento em que a identidade de "cidade religiosa" se manifesta de forma mais pujante, reforçando os laços entre a paróquia e a sociedade civil.
Para situar a igreja de Lagoa Dourada no panorama mais amplo, é útil compará-la com outros centros de devoção ao Bom Jesus mencionados na literatura técnica. Esta comparação ajuda a entender o que é único em Lagoa Dourada e o que é compartilhado pela tradição mineira.
O Santuário de Congonhas representa o ápice do Barroco, com o adro dos 12 profetas em pedra-sabão e as 66 esculturas de Aleijadinho nas capelas dos passos.8 Já a Paróquia de Matosinhos em São João del-Rei, embora tenha origens em 1774, possui uma igreja matriz moderna, inaugurada em 1980, após a demolição da pequena capela colonial original que estava em situação crítica.6
Lagoa Dourada ocupa um lugar intermediário e singular: possui uma estrutura arquitetônica do início do século XX (reconstrução de 1911), mas preserva um retábulo e imagens do século XVIII de um mestre anônimo redescoberto.2 Diferente de São João del-Rei, que optou por uma nova matriz monumental, Lagoa Dourada manteve a escala e a localização da capela histórica, realizando uma reconstrução que hoje já se tornou, ela mesma, patrimônio histórico.
Apesar dos sucessos recentes em termos de restauração e reconhecimento artístico, a Igreja do Senhor Bom Jesus de Matosinhos enfrenta desafios contínuos. A conservação de monumentos históricos em Minas Gerais é uma batalha constante contra o tempo e os elementos naturais.
Conforme apontado em dossiês de tombamento de monumentos similares, a precariedade de materiais originais (madeira e barro) e o alto índice de chuvas na região exigem manutenção preventiva rigorosa.20 Em Lagoa Dourada, a substituição de estruturas na reconstrução de 1911 mitigou alguns destes problemas, mas a preservação do retábulo-mor de madeira setecentista continua sendo a maior preocupação técnica, exigindo controle de umidade e proteção contra pragas.10
O futuro da igreja está intimamente ligado à sua capacidade de se inserir nos circuitos turísticos do estado. Lagoa Dourada já é nacionalmente famosa por sua gastronomia, especialmente o rocambole.4 A estratégia de associar o turismo gastronômico ao patrimônio histórico-religioso é vital. A revitalização do complexo do Bom Jesus pode transformar o local em um ponto de parada obrigatória na Estrada Real e no Circuito Trilha dos Inconfidentes.
A reabertura do templo no final de 2023 com uma infraestrutura renovada permite que a igreja acolha não apenas fiéis, mas também o "turista cultural" interessado na história da arte mineira e na obra do Mestre de Lagoa Dourada.2 A transformação do templo em um "museu vivo" é a melhor forma de garantir os recursos necessários para a sua manutenção a longo prazo.
A pesquisa minuciosa sobre a Igreja do Senhor Bom Jesus de Matosinhos de Lagoa Dourada revela um monumento de complexidade ímpar. O que à primeira vista poderia parecer apenas mais uma capela colonial, revela-se, sob um olhar técnico e histórico, como um repositório de memórias resilientes e de arte excepcional.
A trajetória da igreja — da glória aurífera inicial, passando pela destruição traumática de 1905, a reconstrução sólida de 1911 por Augusto Buzatti, até a revelação acadêmica do Mestre de Lagoa Dourada no século XXI — é um resumo da própria história de Minas Gerais: uma mistura de fé inabalável, desafios materiais e uma busca incessante por preservar a beleza e a transcendência.
A proteção conferida pelo IEPHA/MG e a gestão ativa da Paróquia de Santo Antônio e do município são os pilares que sustentam este bem cultural. O reconhecimento da obra do Mestre de Lagoa Dourada não apenas eleva o status artístico da igreja, mas também confere à cidade uma nova camada de identidade cultural, descentralizando a história da arte mineira e valorizando os artífices regionais.
Portanto, a Igreja do Senhor Bom Jesus de Matosinhos permanece no alto de sua colina como um farol de fé e cultura. Seja através dos passos da Via Sacra marcados nas muretas de tijolo, ou da expressividade das imagens esculpidas há quase trezentos anos, o templo convida à reflexão sobre a permanência do sagrado e a responsabilidade coletiva de proteger o que o passado nos legou. A continuidade das ações de restauração, a promoção do Jubileu e a inserção da igreja nos roteiros de turismo sustentável são os caminhos necessários para que este patrimônio continue a inspirar e a acolher as gerações futuras.
Referências citadas
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Paróquia de Lagoa Dourada realiza exposição sobre devoção ao Bom Jesus | Diocese de São João del Rei, acessado em dezembro 17, 2025, https://diocesedesaojoaodelrei.com.br/paroquia-de-lagoa-dourada-realiza-exposicao-sobre-devocao-ao-bom-jesus/
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Horários de Missas :: Lagoa Dourada, acessado em dezembro 17, 2025, https://paroquiadelagoadourada.webnode.page/horarios-de-missas/
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Jubileu de Matosinhos tem início nesta sexta-feira, 05 de setembro, acessado em dezembro 17, 2025, https://diocesedesaojoaodelrei.com.br/jubileu-de-matosinhos-tem-inicio-na-sexta-feira-05-de-setembro/
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Congonhas se prepara para o Jubileu do Senhor Bom Jesus de Matosinhos 2022 - Entre Rios News, acessado em dezembro 17, 2025, https://www.entreriosnews.com.br/noticia/1464/congonhas-se-prepara-para-o-jubileu-do-senhor-bom-jesus-de-matosinhos-2022
Jubileu do Bom Jesus movimenta fiéis e economia no bairro de Matosinhos, acessado em dezembro 17, 2025, https://emboabas.com/2025/09/04/jubileu-do-bom-jesus-movimenta-fieis-e-economia-no-bairro-de-matosinhos/
Eventos: JUBILEU DO SENHOR BOM JESUS DE MATOZINHOS DE CONGONHAS/MG, acessado em dezembro 17, 2025, https://minasgerais.com.br/pt/eventos/congonhas/jubileu-do-senhor-bom-jesus-de-matozinhos-de-congonhasmg
Paróquia de Matosinhos festeja Padroeiro e celebra 250 anos de devoção | Diocese de São João del Rei, acessado em dezembro 17, 2025, https://diocesedesaojoaodelrei.com.br/paroquia-de-matosinhos-festeja-padroeiro-e-celebra-250-anos-de-devocao/
Sítios históricos e conjuntos urbanos de monumentos nacionais - IPHAN, acessado em dezembro 17, 2025, http://portal.iphan.gov.br/uploads/publicacao/CadTec4_SitiosHistoricos_m.pdf
CAPITAL DA FÉ! Jubileu de Congonhas celebra 243 anos de fé e devoção ao Senhor Bom Jesus de Matosinhos - Correio de Minas, acessado em dezembro 17, 2025, https://correiodeminas.com.br/2024/09/06/capital-da-fe-jubileu-de-congonhas-celebra-243-anos-de-fe-e-devocao-ao-senhor-bom-jesus-de-matosinhos/