A historiografia da arquitetura colonial em Minas Gerais tem se dedicado, majoritariamente, ao estudo das permanências. As igrejas que sobreviveram aos séculos, com suas talhas douradas e fachadas imponentes, constituem o corpo visível e celebratório do "Barroco Mineiro", servindo como âncoras para a identidade regional e para o turismo cultural. No entanto, paralelamente a essa história do edificado, existe uma "história da ausência", uma narrativa fragmentada composta por templos que ruíram, projetos que jamais passaram das fundações ou edifícios que, vítimas da decadência econômica e do descaso patrimonial, foram apagados da paisagem urbana. Este relatório dedica-se a investigar um desses casos emblemáticos de desaparecimento: a Capela de Nossa Senhora das Mercês no arraial, hoje cidade, de Lagoa Dourada.
Para compreender a gênese da Capela das Mercês, é imperativo situar Lagoa Dourada não como um ponto isolado, mas como um nó estratégico na complexa rede de circulação de riquezas e pessoas que definiu a Capitania de Minas Gerais nos séculos XVIII e XIX. A localidade não surgiu de um planejamento administrativo centralizado, mas sim da exploração aurífera imediata e da necessidade logística de conexão entre os centros mineradores.
O nome "Lagoa Dourada" não é uma metáfora poética, mas uma descrição literal da geomorfologia econômica que deu origem ao povoamento. Relatos históricos e a tradição oral convergem na afirmação de que os primeiros exploradores, bandeirantes e emboabas, encontraram ouro de aluvião em abundância nas margens e no leito da lagoa que domina a paisagem local.1 Esta descoberta, ocorrida nas primeiras décadas do século XVIII, desencadeou um afluxo populacional desordenado, típico dos "faiscadores", que se estabeleceram precariamente ao redor do corpo d'água.
A historiografia local, apoiada nas pesquisas de Dauro J. Buzatti, indica que a região sofreu uma "verdadeira invasão" no início do setecentos. O ouro aluvial, de extração mais simples que o de minas subterrâneas, permitiu uma capitalização rápida, embora efêmera, dos primeiros habitantes. Este ouro inicial foi o "adubo" que impulsionou o crescimento do arraial, atraindo não apenas mineradores, mas também comerciantes, artífices e clérigos, estabelecendo a base demográfica necessária para a formação de instituições sociais complexas como as irmandades religiosas.2
A morfologia urbana de Lagoa Dourada distingue-se de outras vilas coloniais mineiras que cresceram em torno de praças centrais ou adros de matrizes. Lagoa Dourada desenvolveu-se, primordialmente, como um "arraial-estrada". A sua função de entreposto no caminho que ligava São João del-Rei a Vila Rica (Ouro Preto) e, por extensão, ao Rio de Janeiro, moldou sua estrutura física.
O explorador britânico Richard Burton, em sua passagem pela região em 1867, oferece uma descrição cirúrgica e antropológica deste urbanismo. Ele descreve Lagoa Dourada como apresentando-se na forma de uma "rua única" (single street), uma tipologia que ele, com seu vasto repertório de viajante global, compara a assentamentos na África Ocidental, especificamente no Gabão ou no Congo.3 Burton observa cerca de cinquenta casas térreas, com beirais "muito projetados" (far-projecting eaves), que, vistos de baixo, sugeriam uma escadaria colossal.
Esta configuração linear é fundamental para entender a localização das capelas. Em um arraial de rua única, as igrejas tendem a ocupar as extremidades ou elevações laterais que dominam o eixo viário, marcando visualmente o território sagrado e competindo pela atenção do viajante e do devoto. A Matriz de Santo Antônio ocupava um lugar de destaque, mas a existência de outras capelas, como a do Rosário e a extinta Mercês, sugere uma disputa simbólica pelo espaço urbano ao longo dessa espinha dorsal viária.
Para avaliar a viabilidade da construção da Capela das Mercês, é necessário analisar a base demográfica que a sustentaria. Dados do Censo de 1831, compilados em estudos acadêmicos sobre a região, revelam uma sociedade complexa. O distrito de Lagoa Dourada contava com uma população livre significativa, mas também com uma base escravista robusta. O censo lista 654 indivíduos livres, distribuídos em diversas faixas etárias, e grandes proprietários de terras e escravos, como Francisco de Paula Coelho, que possuía 114 escravos.6
No entanto, o dado mais relevante para a história da Capela das Mercês é a presença de uma população de "forros" (libertos) e pardos livres. O censo menciona domicílios chefiados ou compostos exclusivamente por forros, como o de João José de Miranda, que vivia com onze libertos.6 É este estrato social — o pardo livre, o forro, o pequeno artífice — que tradicionalmente compunha a base das Irmandades de Nossa Senhora das Mercês em Minas Gerais. A existência de um contingente populacional livre, não branco e economicamente ativo, fornece o "móvel social" para a ereção de um templo distinto daquele das elites brancas (Santíssimo Sacramento) ou dos negros escravizados (Rosário).
A arquitetura religiosa colonial brasileira é, em essência, a expressão material das irmandades leigas. Diferente da Europa, onde a Igreja institucional (bispados e paróquias) detinha o protagonismo construtivo, nas Minas Gerais o "Padroado" e a estrutura social conferiram aos leigos a responsabilidade de erguer e manter os templos. A Irmandade de Nossa Senhora das Mercês desempenhou um papel específico e crucial nessa dinâmica.
A devoção a Nossa Senhora das Mercês, com suas raízes na redenção dos cativos cristãos, encontrou terreno fértil na sociedade escravista brasileira. Em Minas Gerais, ela se tornou a insígnia dos "pardos" ou "mulatos". Este grupo social ocupava uma posição limítrofe e tensa: não eram brancos, o que lhes vedava o acesso pleno às irmandades do Santíssimo Sacramento e às ordens terceiras de elite (como a do Carmo ou São Francisco de Assis, em muitas localidades), mas também buscavam distinguir-se da massa de negros escravizados ou recém-libertos congregados sob o manto de Nossa Senhora do Rosário.7
A construção de uma igreja própria era o ato máximo de afirmação de identidade corporativa. Significava autonomia financeira, capacidade de gestão e visibilidade pública. Em cidades vizinhas como São João del-Rei e Tiradentes (Vila de São José), as Irmandades das Mercês lograram êxito notável. A Igreja das Mercês de Tiradentes, iniciada em meados do século XVIII, é uma joia do rococó, com pintura de forro de Manoel Victor de Jesus e um adro que domina a paisagem.8 Em Lagoa Dourada, a intenção era replicar esse modelo de sucesso.
Embora os livros de compromisso originais da Irmandade das Mercês de Lagoa Dourada não estejam explicitamente detalhados nos fragmentos disponíveis, a existência da capela e a tradição oral confirmam a presença da instituição. A historiografia regional aponta que a introdução de festividades como o "Encontro" na Semana Santa, em localidades vizinhas, está intrinsecamente ligada à criação das Confrarias das Mercês e à finalização de suas igrejas.9
Em Lagoa Dourada, a Irmandade das Mercês teria sido fundada provavelmente na segunda metade do século XVIII, seguindo a onda de criação dessas associações na Comarca do Rio das Mortes (Tiradentes em 1754, por exemplo).10 A associação assumiria a responsabilidade de promover o culto à Virgem das Mercês, realizar enterros solenes para seus membros e, fundamentalmente, edificar uma "morada digna" para a santa, que servisse também de sede administrativa e cemitério para os irmãos.
A função de uma igreja de irmandade transcendia a missa dominical. Ela era um nó litúrgico na geografia da cidade, especialmente durante a Quaresma e a Semana Santa. As procissões de "Passos" e do "Encontro" exigiam uma dramaturgia urbana que necessitava de múltiplos templos.
O ritual do "Depósito" e do "Encontro" é descrito em detalhes para a região: a imagem do Senhor dos Passos sairia de uma igreja (geralmente a Matriz ou a do Rosário) e seria depositada na Capela das Mercês no sábado, retornando ou encontrando a imagem de Nossa Senhora das Dores no domingo.9 A Capela das Mercês em Lagoa Dourada era, portanto, funcionalmente indispensável para a completude desse teatro sacro. A procissão do depósito entrava na Capela das Mercês, onde ocorria o sermão do pretório ou a cerimônia do velário.9
A ruína da capela forçou uma adaptação litúrgica. Com o desaparecimento do templo físico, a imagem da santa e as funções rituais tiveram que ser absorvidas por outras igrejas, como a Matriz de Santo Antônio ou a Igreja do Bom Jesus, descaracterizando a geografia original da devoção local.
A prova cabal da existência física e do estado de ruína da Capela das Mercês em Lagoa Dourada reside no relato ocular de Sir Richard Francis Burton. Sua obra Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho (título original: Explorations of the Highlands of the Brazil) não é apenas um diário de aventuras, mas um inventário crítico das condições sociais e materiais do Brasil Império.
Burton atravessou a região em 1867. Sua descrição de Lagoa Dourada é marcada por um tom de desencanto com a estagnação econômica que observava nas antigas áreas mineradoras. Ao descrever os edifícios religiosos, Burton é explícito sobre a existência de obras ambiciosas que jamais foram concluídas.
O trecho chave, citado por pesquisadores e corroborado pela historiografia local, descreve uma estrutura onde "pilastras e púlpitos de pedra estão condenados a não passar de embriões" e onde um "arco de alvenaria destinado a marcar o lugar do altar-mor, ao Norte, está coberto de ervas daninhas".12 Esta descrição é de valor arqueológico inestimável.
Dauro J. Buzatti, o principal historiador de Lagoa Dourada, valida a interpretação do texto de Burton como referente especificamente à Capela das Mercês. Em sua obra "Lagoa Dourada 300 anos - Síntese Histórica", Buzatti categoricamente afirma, referenciando Burton, a "existência de uma Capela das Mercês, que desde o final do século XIX já não existe".10
Essa confirmação secundária é vital porque conecta a observação estrangeira ("uma ruína anônima") com a memória local ("a Capela das Mercês"). Buzatti, conhecedor da tradição oral e dos documentos locais, identifica naquela ruína descrita pelo inglês o templo perdido da irmandade dos pardos.
A questão central permanece: por que a Capela das Mercês ruiu e não foi reconstruída, enquanto suas congêneres vizinhas prosperaram? A resposta reside numa confluência de fatores econômicos e técnicos.
Fator Econômico: O século XIX foi um período de profunda recessão para as cidades que dependiam exclusivamente do ouro de aluvião, que se esgotou rapidamente. Diferente de Ouro Preto ou São João del-Rei, que diversificaram suas economias ou mantiveram status administrativo relevante, Lagoa Dourada viu sua elite empobrecer e sua população estagnar. As irmandades, dependentes das anuidades e esmolas dos irmãos, entraram em colapso financeiro. Sem recursos para reparar um telhado ou consolidar uma parede, a ruína tornou-se inevitável.
Fator Técnico: A arquitetura colonial mineira é intrinsecamente frágil se desprovida de manutenção. As paredes de terra (adobe, taipa) dependem absolutamente da integridade do telhado e dos beirais para sobreviver às chuvas torrenciais do verão mineiro. Se a obra parou antes da cobertura definitiva, ou se o telhado ruiu por falta de reparos, a dissolução das paredes de terra seria rápida. As peças de cantaria (pedra) descritas por Burton — pilastras e púlpitos — resistiriam, mas descontextualizadas, acabariam sendo reaproveitadas pela população em alicerces de casas ou muros, completando o apagamento do edifício.
Segundo um rastro documental específico sobre a imagem titular da extinta capela, fontes indicam que "a imagem da padroeira sobreviveu no nicho da Sacristia da Matriz de Santo Antônio até os anos de 1960".9
Este dado revela o modus operandi do desaparecimento patrimonial:
O Abrigo Provisório: Com a ruína da Capela das Mercês (provavelmente em meados ou fins do século XIX), a imagem principal, sacralizada e valiosa, foi resgatada e levada para a igreja mais próxima e segura, a Matriz de Santo Antônio. Ali, ela permaneceu como "hóspede" na sacristia, fora do altar principal, preservando a memória da capela extinta.
A Capela das Mercês é, portanto, uma "ruína fantasma". Ela não está presente nos guias turísticos, não tem tombamento individual (pois não há corpo físico), mas sua história é um componente vital para entender a identidade de Lagoa Dourada. Ela representa o esforço da comunidade parda em afirmar seu espaço, a ambição estética de contratar mestres de cantaria e escultores, e a tragédia econômica que soterrou esses sonhos sob a vegetação e o esquecimento.
Hoje, a localização exata do templo permanece um tema para a arqueologia urbana — possivelmente em uma elevação ao Norte, como sugeriu Burton, ou nas imediações do que a memória local possa chamar de "antigo lugar das Mercês". A história dessa igreja não é sobre o que se vê, mas sobre o que se perdeu, servindo de alerta para a contínua vulnerabilidade do patrimônio cultural mineiro frente ao tempo e ao descaso humano.
Referências citadas
Trechos retirados do livro: “Lagoa Dourada 300 anos - Síntese Histórica”, autor: Dauro J. Buzatti, acessado em dezembro 23, 2025, https://www.lagoadourada.mg.gov.br/pagina/4583/Hist%C3%B3ria
Ouro: um ciclo cultural - Tradições Populares das Vertentes, acessado em dezembro 23, 2025, http://folclorevertentes.blogspot.com/2015/05/ouro-um-ciclo-cultural.html
Full text of "Explorations of the highlands of the Brazil; with a full account of the gold and diamond mines. Also, canoeing down 1500 miles of the great river São Francisco, from Sabará to the sea" - Internet Archive, acessado em dezembro 23, 2025, https://archive.org/stream/explorationsofhi01burt/explorationsofhi01burt_djvu.txt
Lagoa Dourada é uma típica cidade mineira, com suas delícias culinárias, suas tradicionais igrejas e um povo hospitaleiro. Está localizada no planalto oriental brasileiro, na atual região dos Campos das Vertentes, que era parte do antigo Sertão dos Cataguases. A cidade ficou nacionalmente conhecida pelo seu rocambole, um tipo de pão de ló recheado com doce, por ser o berço do Jumento Pêga e por fazer parte da Estrada Real. Além disso, vem se destacando também na indústria moveleira, na produção de móveis de madeira de demolição, possuindo, inclusive, nove fábricas de móveis., acessado em dezembro 23, 2025, https://lagoadourada.mg.gov.br/?Meio=Pagina&INT_PAG=4582
Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho - MPMG, acessado em dezembro 23, 2025, https://wiki.mpmg.mp.br/patrimoniocultural/lib/exe/fetch.php?media=viagem_do_rio_de_janeiro_a_morro_velho.pdf
UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO JOÃO DEL-REI DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓ, acessado em dezembro 23, 2025, https://www.ufsj.edu.br/portal2-repositorio/File/pghis/DissertacaoKeilaCeciliaMelo.pdf
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A Festa de Passos através dos tempos - Instituto Histórico e Geográfico de Tiradentes, acessado em dezembro 23, 2025, http://ihgt.blogspot.com/2016/03/a-festa-de-passos-atraves-dos-tempos.html
Tradições Populares das Vertentes: setembro 2013, acessado em dezembro 23, 2025, http://folclorevertentes.blogspot.com/2013/09/
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Construções antigas e de grande valor histórico estão abandonadas em Minas - Gerais, acessado em dezembro 23, 2025, https://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2014/02/10/interna_gerais,496755/construcoes-antigas-e-de-grande-valor-historico-estao-abandonadas-em-minas.shtml
Historiadores descobrem imagens do século XVII . Peças se encontram em igreja de Lagoa Dourada Minas Gerais - São João del-Rei, Tiradentes, Ouro Preto Transparentes, acessado em dezembro 23, 2025, https://saojoaodelreitransparente.com.br/works/view/667
Igreja de Bom Jesus, principal obra do “Mestre (anônimo) de Lagoa Dourada”, acessado em dezembro 23, 2025, https://www.jornaldaslajes.com.br/integra/igreja-de-bom-jesus-principal-obra-do-mestre-anonimo-de-lagoa-dourada/4367