A paisagem sonora das cidades históricas de Minas Gerais, particularmente na região do Campo das Vertentes, é moldada por uma tradição musical que sobrevive há séculos, fundamentada na atuação de orquestras e bandas de música civis e religiosas. Dentro desse vasto e complexo repertório, poucas obras possuem a carga emocional e a importância ritualística da marcha fúnebre composta por João Francisco da Mata, conhecida popularmente apenas como "João da Mata". Esta peça transcende a mera execução musical para se tornar um pilar da identidade imaterial de comunidades como São João del-Rei, Prados e Lagoa Dourada, funcionando como um cronômetro acústico para os ritos da Semana Santa e um símbolo da resistência cultural de músicos negros e pardos no século XIX.1
A análise da marcha fúnebre João da Mata exige uma compreensão profunda do contexto sociopolítico de Minas Gerais durante o Segundo Reinado, da estrutura das irmandades religiosas e da própria biografia do autor, cuja trajetória é marcada pela dualidade entre o virtuosismo erudito e a vida rústica nos sertões mineiros.2 A permanência dessa obra nos arquivos e na memória popular revela não apenas a qualidade estética da composição, mas a forma como a música atua como um mecanismo de coesão social e preservação histórica em uma região que se orgulha de suas corporações musicais bicentenárias.3
A história de João Francisco da Mata é a narrativa de um músico negro e pobre que, apesar das barreiras impostas por uma sociedade escravocrata e profundamente estratificada, emergiu como uma lenda viva da cultura mineira no século XIX.2 Por muito tempo, a origem exata de Mata foi objeto de disputas entre diversas cidades, como Lavras e Oliveira, que reivindicavam o compositor devido à sua intensa produção e circulação nessas localidades.2 No entanto, pesquisas musicológicas rigorosas, fundamentadas em documentos primários do Arquivo Paroquial da Catedral de São João del-Rei e em estudos acadêmicos subsequentes, confirmaram sua naturalidade são-joanense.2
João Francisco da Mata nasceu em 8 de fevereiro de 1844, data em que se celebra o dia de São João da Mata, santo que deu origem ao seu nome.2 Seu registro de batismo o descreve como "João, inocente, crioulo", identificando-o como filho natural de Maria Africana, uma mulher escravizada pertencente a D. Anna Narciza de Jesus.2 Essa origem é fundamental para entender a inserção de Mata no cenário musical da época, visto que a música era um dos poucos campos onde a população negra e parda de Minas Gerais encontrava espaço para o desenvolvimento profissional e o reconhecimento social, muitas vezes através das irmandades religiosas de pardos e negros.2
A consciência de sua identidade e o vínculo com sua terra natal eram manifestos pelo próprio compositor. Em 1889, ao planejar uma viagem à capital do Império no Rio de Janeiro para buscar novas oportunidades e reconhecimento, Mata publicou anúncios no jornal A Pátria Mineira solicitando o apoio de seus "bons conterrâneos", o que reforça sua identificação com a comunidade de São João del-Rei e sua busca por legitimidade dentro do seu grupo social de origem.2
A educação musical de Mata ocorreu sob a égide de Martiniano Ribeiro Bastos, um dos grandes mestres da música em São João del-Rei, em sua renomada escola na Rua da Prata.2 Sob essa tutela, João da Mata desenvolveu um domínio técnico excepcional que o permitiu transitar por diversos instrumentos. Ele era reconhecido como um multi-instrumentista virtuose, com habilidade para tocar todos os instrumentos de sopro de três chaves ou válvulas da época.2
Seu instrumento de maior destaque, contudo, foi o oficleide. Este instrumento de metal, antecessor da tuba, exigia uma combinação rara de força física, controle de fôlego e agilidade técnica, qualidades que Mata possuía em abundância.2 Além de instrumentista, ele atuou como compositor prolífico, regente, pianista, afinador de pianos e professor de música em diversas cidades do sul e oeste de Minas.2 Sua capacidade técnica foi elogiada por contemporâneos ilustres, incluindo o compositor Carlos Gomes, que, segundo relatos, o considerava uma das mentes musicais mais brilhantes que já conhecera.2
Um dos elementos mais singulares da trajetória de João da Mata é a fusão de sua carreira musical com a atividade de tropeiro. Para garantir seu sustento e talvez impulsionado por uma natureza boêmia e itinerante, Mata viajava pelos sertões de Minas Gerais conduzindo tropas de animais.2 Esse estilo de vida, embora rústico e desgastante, foi o principal veículo de propagação de sua obra. Ao passar por diferentes vilas e povoados, Mata ensinava suas composições às bandas locais e deixava cópias de suas partituras, o que explica a presença maciça de seus originais e transcrições em acervos de diversas corporações musicais pelo estado.3
Essa existência nômade também era marcada por desafios pessoais. Relatos históricos descrevem Mata como um homem dado à boemia e ao consumo frequente de álcool, características que parecem ter alimentado a melancolia profunda presente em suas marchas fúnebres.2 Essa "alma triste", expressa em composições como a modinha Minh'Alma é Triste, revela a complexidade emocional de um artista que vivia entre a glória de seu talento e a precariedade de sua condição social e financeira.2
A atuação de João da Mata em São João del-Rei ocorreu dentro de um sistema de rivalidade institucional que define a música da cidade até os dias atuais. Ele integrou a Orquestra Lira Sanjoanense, corporação fundada em 1776 e historicamente associada aos "rapaduras" — apelido dado aos músicos negros e pardos da cidade.2 Em contrapartida, a Orquestra Ribeiro Bastos representava os "coalhadas", a elite branca local.2
Essa divisão não era apenas uma questão de classe ou raça, mas refletia diferentes abordagens estéticas e funções sociais. Enquanto os "coalhadas" mantinham um vínculo mais estrito com as tradições europeias de elite, os "rapaduras" da Lira Sanjoanense, através de figuras como Mata, integravam elementos da ópera italiana e da sensibilidade popular local em suas obras, criando um som que era ao mesmo tempo erudito e profundamente conectado com a alma do povo mineiro.2 A influência da ópera italiana do século XIX é uma característica marcante da obra de Mata, conferindo às suas marchas fúnebres um caráter dramático e teatral que intensifica o sentimento de luto nas cerimônias religiosas.2
A marcha fúnebre, em Minas Gerais, não é apenas um gênero musical associado ao sepultamento, mas uma peça fundamental da liturgia paralitúrgica da Semana Santa. Sua história está intrinsecamente ligada aos costumes funerários, especialmente após a mudança dos sepultamentos do interior das igrejas para cemitérios afastados a partir da terceira década do século XIX, o que exigiu música instrumental para acompanhar os longos cortejos.5
A marcha fúnebre João da Mata é reconhecida por sua solenidade e profundidade melancólica. Executada tradicionalmente por bandas de sopro, ela se caracteriza por um andamento lento (grave), com um ritmo cadenciado que simula o passo humano em procissão.1 A instrumentação típica envolve metais pesados para as linhas de baixo, clarinetas para as melodias líricas e o uso estratégico da percussão para marcar o tempo do luto.7
Em termos de duração, a marcha é notavelmente longa em comparação com padrões de concerto. Gravações e execuções tradicionais podem durar cerca de 15 minutos, o que é uma exigência funcional: a música deve ser capaz de preencher o tempo necessário para que uma procissão percorra ruas inteiras ou para que uma cerimônia de encerramento dentro de uma igreja seja concluída com a devida gravidade.1
A cidade de Prados, através da Lira Ceciliana (fundada em 1858), detém uma das tradições mais específicas ligadas a esta marcha. Na Quarta-feira da Paixão, pontualmente às 20 horas, a banda executa a marcha fúnebre João da Mata no interior da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição.1 Este ato sinaliza o encerramento da Festa de Passos na cidade e é considerado uma cerimônia única na região, não havendo relatos de outra corporação que realize rito idêntico.1
Além da quarta-feira, a marcha é ouvida na Sexta-feira da Paixão, durante a Procissão do Enterro. Em Prados, a execução segue um roteiro geográfico onde diferentes compositores são homenageados em ruas específicas, demonstrando como a música de Mata está enraizada no urbanismo da cidade.1
A marcha fúnebre João da Mata não é exclusividade de Prados. Sua presença é sentida em toda a microrregião de São João del-Rei, sendo mantida por diversas bandas civis que preservam o repertório tradicional como uma obrigação cultural e social.1
Na terra natal do compositor, a marcha é executada de forma proeminente durante a Quarta-feira Santa, marcando a visitação aos "passinhos" (pequenas capelas que representam as estações da Paixão) e o término da Procissão das Dores.2 Um momento de grande impacto ocorre quando a banda entra na Igreja Matriz tocando a marcha de João da Mata, culminando no "Sermão da Soledade", onde a música sublinha o luto de Nossa Senhora após a crucificação de seu filho.9
Em Lagoa Dourada, a Lira Lagoense (fundada em 1934) é a guardiã dessa obra.1 A relação da comunidade com a música é descrita como orgânica e exigente; a população local considera que uma Semana Santa sem a música das bandas é uma festa "morta", comparável a um enterro sem honrarias.6 A execução das marchas tradicionais, incluindo a de João da Mata, é vista como um ato de cidadania e preservação da cultura imaterial.1
A dispersão da obra por cidades como Madre de Deus de Minas, Resende Costa e Aiuruoca é um reflexo direto das viagens de Mata como tropeiro e mascate.1 Em cada uma dessas localidades, a marcha assume matizes locais, sendo tocada em momentos distintos das procissões ou em funerais de figuras ilustres da sociedade local, mantendo viva a memória de pessoas mortas que inspiraram os compositores originais.5
Embora a marcha fúnebre seja seu legado mais visível, a produção de João da Mata foi eclética, abrangendo música sacra de rigor litúrgico e música profana destinada ao entretenimento urbano do século XIX.
Suas composições sacras refletem o estilo barroco-rococó tardio de Minas Gerais, mesclado com a sensibilidade romântica de sua época. Entre as obras mais importantes citadas em acervos e programas de concerto estão:
Stabat Mater em Si Bemol: Uma peça de profunda dramaticidade, executada tradicionalmente na Sexta-feira Santa em São João del-Rei.2
Missa São Sebastião: Obra de grande escala que demonstra sua habilidade em compor para coro e orquestra.2
Te Deum "Rosa de Ouro": Hino de louvor utilizado em cerimônias de ação de graças.2
Tota Pulchra: Antífona dedicada à Virgem Maria, com versões publicadas e manuscritas em diversos arquivos.2
O lado boêmio e popular de Mata manifestava-se em ritmos que animavam a vida social das cidades mineiras e da corte no Rio de Janeiro:
Tango das Moças: Uma das raras composições profanas de Mata que foram impressas, neste caso em Juiz de Fora.2
Os Monarchas: Série de quadrilhas para banda, gênero de dança extremamente popular no Brasil imperial.2
Minh'Alma é Triste: Modinha baseada na poesia de Casimiro de Abreu, gênero que unia a sofisticação da canção de câmara ao sentimento popular brasileiro.2
A especialidade de João da Mata no oficleide não era apenas uma escolha instrumental, mas uma influência direta em sua forma de compor. O oficleide, sendo um instrumento de transição entre o serpentão e a tuba moderna, possuía uma sonoridade metálica mas com uma agilidade que permitia solos líricos em registros graves.2 As marchas fúnebres de Mata tiram proveito dessa característica, apresentando linhas de baixo que não são meramente rítmicas, mas possuem uma cantabilidade operística, herança provável de sua admiração pela música de Carlos Gomes e dos mestres italianos.2
Com a modernização das bandas e a substituição do oficleide por tubas e bombardinos, as execuções contemporâneas da marcha João da Mata buscam preservar essa textura sonora rica e pesada, fundamental para o impacto emocional da obra durante os cortejos.8
A manutenção da execução da marcha fúnebre João da Mata é um exemplo clássico de patrimônio cultural imaterial que se renova através da prática.1 Em Minas Gerais, a proteção desse patrimônio envolve não apenas a guarda física das partituras, mas o estímulo às bandas de música civis, que são as verdadeiras detentoras do saber musical regional.13
A sobrevivência da obra de Mata deve muito ao trabalho de resgate de figuras como Aluízio José Viegas, cujas pesquisas no século XX permitiram identificar a autoria de muitas peças que circulavam de forma anônima ou com atribuições errôneas.2 A catalogação iniciada por pesquisadores como José Maria Neves e Maria Conceição Rezende também foi vital para situar João da Mata dentro da história da música colonial e imperial mineira.3
Instituições como a Lira Sanjoanense e a Lira Ceciliana de Prados mantêm arquivos físicos que são consultados por músicos e acadêmicos, garantindo que as interpretações contemporâneas respeitem as intenções originais do compositor, mesmo quando adaptadas para as formações modernas de banda.9
Um dos maiores desafios para a preservação desse repertório é a pressão por inovação versus a exigência de tradição. Em cidades como São João del-Rei e Prados, há pouco espaço para a inclusão de novas marchas fúnebres, pois o povo identifica cada procissão e cada trecho de rua com uma música específica.1 A marcha de João da Mata, por sua carga histórica, goza de uma primazia que inviabiliza sua substituição, tornando-se um "monumento sonoro" intocável.1
Essa resistência cultural garante a longevidade da obra, mas também impõe aos músicos a necessidade de um ensaio rigoroso e constante para atender às expectativas de uma audiência que conhece cada nota e cada nuance da composição.6
Ao realizar pesquisas exaustivas sobre João da Mata, é comum encontrar referências a um artista português de mesmo nome, João da Mata (1844-1909), que foi guitarrista e poeta popular em Lisboa, fortemente ligado ao fado.14 Embora contemporâneos e partilhando o mesmo nome, o João da Mata português dedicou-se a gêneros urbanos lisboetas, casando-se com a cantadeira Madalena de Melo e excursionando por colônias portuguesas na África e pelo Brasil.14
A distinção entre ambos é crucial para a musicologia histórica: o João da Mata mineiro é o autor das marchas fúnebres e da música sacra que define a Semana Santa em Minas Gerais, enquanto o homônimo português é uma figura central do fado da Bica e da canção nacional portuguesa.14 Essa coincidência destaca como nomes comuns podem ocultar trajetórias distintas que, no entanto, compartilham uma mesma época de efervescência musical no mundo lusófono.
João Francisco da Mata representa a síntese da cultura mineira do século XIX: uma mistura de erudição técnica, devoção religiosa profunda e uma vida marcada pela itinerância geográfica e social. Sua marcha fúnebre não é apenas uma sequência de notas, mas o eco de uma história de superação racial e de excelência artística que se recusa a ser esquecida.1
Seja no silêncio da Matriz de Prados na quarta-feira santa, seja no estrépito dos metais pelas ruas de São João del-Rei, a música de Mata continua a cumprir sua função primordial: conectar os vivos à memória dos mortos e os fiéis ao mistério da Paixão. Enquanto houver uma banda de música nas Vertentes e um povo que "cobra" por suas tradições, a marcha João da Mata permanecerá sendo a trilha sonora oficial do luto e da fé mineira, provando que o talento de um "crioulo inocente" foi capaz de forjar um dos símbolos mais perenes da identidade brasileira.2
Referências citadas
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