A historiografia do Campo das Vertentes, em Minas Gerais, revela-se como um dos capítulos mais densos da formação identitária brasileira, onde a música atua não apenas como manifestação estética, mas como um eixo de estruturação social e política. No epicentro dessa dinâmica, o município de Lagoa Dourada destaca-se pela preservação de uma linhagem artística singular: os Mariafra. Este grupo familiar, cujo expoente inicial foi João Evangelista Bernardes — o João Mariafra —, consolidou uma tradição que atravessa séculos, partindo das raízes coloniais da mineração de ouro até a contemporaneidade das associações musicais reconhecidas como patrimônio imaterial. A trajetória dos Mariafra é indissociável da evolução urbana e institucional de Lagoa Dourada, refletindo as tensões entre o sagrado e o profano, a erudição litúrgica e a festa popular, e a transição de um modelo de bandas rivais para uma gestão cultural colaborativa.
A identidade musical de Lagoa Dourada foi marcada, no início do século XX, por uma dicotomia política que se traduzia na existência de duas bandas de música rivais. Relatos orais de moradores antigos indicam que, por volta da década de 1910, a cidade era dividida entre a "banda de seu Evaristo" e a "banda de seu Abelardo".3 Essas agremiações não eram meros conjuntos artísticos, mas extensões das facções políticas locais, cujas disputas por prestígio e influência eram encenadas nos coretos e procissões. Com o falecimento de Abelardo em 1922, uma das bandas perdeu seu vigor, abrindo espaço para uma reestruturação do campo musical.3
Nesse vácuo de liderança, surge a figura de João Evangelista Bernardes, o João Mariafra. Conhecido como o primeiro mestre e professor de música formal da cidade, Mariafra foi incumbido, em 1934, pelo prefeito municipal, de fundar uma nova agremiação que pudesse pacificar os ânimos e unificar os talentos dispersos.3 A fundação da Lyra Lagoense naquele ano representou um movimento de modernização e profissionalização. A banda não era apenas um grupo de lazer; era uma instituição de ensino onde Mariafra formava novos músicos, garantindo a sucessão técnica em instrumentos como a clarineta e o trompete.4
A origem do apelido "Mariafra" é um fenômeno antroponímico comum nas Minas Gerais setecentistas e oitocentistas, onde o epíteto muitas vezes substituía o patronímico oficial na identificação social. João Evangelista Bernardes tornou-se João Mariafra, e esse nome passou a designar não apenas sua pessoa, mas toda uma escola de interpretação e regência que valorizava a disciplina e o rigor técnico.6
Um dos pilares da excelência musical da linhagem Mariafra reside em sua conexão genealógica e profissional com a vizinha Tiradentes. João Mariafra foi genro de Antônio de Pádua Alves Falcão (1848-1927), um dos compositores e maestros mais proeminentes da região.6 Falcão, que atuou como regente das orquestras Ramalho e Ribeiro Bastos, era um polímata da vida pública: além de músico, foi professor de primeiras letras, delegado de polícia e vereador.7
Após a morte de Falcão em 1927, uma parte significativa de seu vasto arquivo musical — contendo partituras manuscritas de missas, motetos e marchas — foi transferida para Lagoa Dourada por João Mariafra.7 Esse fluxo documental transformou Lagoa Dourada em um repositório de obras fundamentais para a musicologia mineira. Mariafra não apenas preservou essas obras, mas integrou-as ao repertório da Lyra Lagoense, elevando o nível técnico das apresentações locais. Posteriormente, esse acervo foi parcialmente adquirido por Aluízio Viegas, um dos maiores musicólogos brasileiros, o que permitiu que composições como a "Missa Maternal" e a "Missa Celeste" fossem catalogadas e estudadas academicamente.7
O maestro João Mariafra e seus filhos Antônio e Afonso.
A relevância de João Mariafra no cenário intelectual é atestada por sua correspondência com o pesquisador teuto-uruguaio Francisco Curt Lange em 1960.11 Lange, o pai da musicologia histórica mineira, reconheceu em Mariafra um informante privilegiado e um guardião de manuscritos raros de autores como Lobo de Mesquita e Manoel Dias de Oliveira.11 Essa rede de contatos evidencia que o "mestre de banda" de uma pequena cidade do interior não era um isolado cultural, mas um participante ativo de um circuito global de preservação da memória musical barroca e clássica.
A sucessão do legado de João Mariafra encontrou em seu filho, Afonso Maria de Ligório Bernardes (Afonso Mariafra), o principal continuador. Nascido em 1º de agosto de 1943, data que coincidia com a celebração de Santo Afonso de Ligório, sua trajetória foi marcada por uma profunda devoção tanto religiosa quanto artística.5 Afonso, trompetista de excelência, representou a ponte entre a tradição de seu pai e as novas demandas do século XX.
A atuação de Afonso Mariafra transcendia os limites de Lagoa Dourada. Em 1968, ele e seu pai foram figuras centrais no funeral do maestro Joaquim Pinto Lara, em Resende Costa, reforçando a solidariedade entre as corporações musicais do Campo das Vertentes.5 Esse intercâmbio regional era vital para a sobrevivência das bandas, permitindo que músicos de diferentes cidades se unissem para compor orquestras maiores em celebrações do Jubileu ou da Semana Santa.5
A morte de Afonso Mariafra em 2017 marcou o fim de uma era, mas não o fim da tradição. Sua casa no centro de Lagoa Dourada era um ponto de referência para pesquisadores da UFMG e de outras instituições que buscavam compreender a complexa rede de transmissão musical da família.5 O relato emocional de Afonso sobre as origens de seu pai e a predileção de João pela clarineta e pela composição de sambas-enredos revela a plasticidade cultural da família, capaz de transitar entre a missa fúnebre e o desfile de carnaval com a mesma maestria.5
A música em Lagoa Dourada não se limitava ao perímetro urbano; ela era alimentada e patrocinada pela estrutura agrária das grandes fazendas coloniais. A Fazenda da Pedra, fundada em 1797, é um exemplo emblemático dessa integração.14 Localizada no caminho velho da Estrada Real, a fazenda foi um centro de criação de muares da raça Pêga e um ponto de encontro para a elite rural que, historicamente, financiava as festas religiosas e, consequentemente, as bandas de música.14
Outra propriedade de suma importância é a Fazenda da Cachoeira, estabelecida em meados do século XVIII pelo coronel Severino Ribeiro e Josefa Maria de Rezende.16 A união entre essas famílias de prestígio — como os Rezende, descendentes de João de Rezende Costa e Helena Maria de Jesus (uma das famosas Três Ilhoas) — criou uma rede de patronato que sustentou a atividade musical.16 Os músicos, muitas vezes oriundos das classes trabalhadoras ou pequenos proprietários, encontravam nessas fazendas o apoio necessário para a manutenção de seus instrumentos e para a realização de festivais. Essa simbiose entre o campo e a música é o que garantiu a longevidade da Lyra Lagoense e, posteriormente, da Associação Musical Santo Antônio.
Elke Maravilha, jurada do Programa do Chacrinha e Programa Sílvio Santos, em uma visita a Afonso Mariafra e sua família em Lagoa Dourada
A trajetória institucional da música em Lagoa Dourada sofreu uma inflexão significativa no início do século XXI. Divergências administrativas e mudanças geracionais levaram à saída de músicos veteranos da Lyra Lagoense, resultando na criação da Associação Musical Santo Antônio.13 Este novo projeto, liderado por Roberto Luiz Resende (Betinho), Breno Resende e Bruno Resende, resgatou a tradição familiar dos Mariafra sob uma nova ótica de gestão cultural.13
Wellington Mariafra, neto de João Mariafra e ex-maestro da Lyra Lagoense, tornou-se a figura central deste renascimento. Em janeiro de 2021, durante o isolamento imposto pela pandemia de COVID-19, ele liderou uma alvorada em honra a São Sebastião, reunindo músicos em um gesto de resistência cultural.4 Esse movimento culminou na formalização da Associação Musical Santo Antônio, que hoje abriga cinco grupos distintos, abrangendo desde a orquestra de viola caipira até a bateria de escola de samba.13
A sustentabilidade da associação é garantida pelo empenho pessoal da família Resende, que financiou a aquisição da sede e dos instrumentos sem depender exclusivamente de subvenções estatais.13 No entanto, o reconhecimento institucional chegou com a destinação de emendas impositivas e a parceria com empresas locais, como a Marluvas, que doou calçados para os músicos, simbolizando o reconhecimento da iniciativa privada à relevância da cultura lagoense.13
O ano de 2025 marcou um ápice na valorização da música mineira, com o reconhecimento de todas as bandas de música do estado como Patrimônio Imaterial pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (IEPHA).13 A Associação Musical Santo Antônio participou ativamente desse processo, apresentando-se no Palácio da Liberdade em Belo Horizonte e em diversos festivais regionais, como o IV Festival de Bandas de Madre de Deus de Minas e o Encontro de Bandas de Carrancas.13
A presença digital da associação, através de perfis no Instagram e canais no YouTube, democratizou o acesso ao seu vasto repertório. Enquanto o YouTube documenta performances de clássicos internacionais (como obras de George Michael e Scorpions) adaptadas para banda, as redes sociais registram o cotidiano das procissões de Corpus Christi e da Semana Santa, mantendo viva a dualidade entre o erudito e o popular que sempre caracterizou os Mariafra.13
A versatilidade técnica de João Mariafra e seus sucessores permitiu que a música de Lagoa Dourada mantivesse uma relevância singular. No arquivo da Orquestra Lira Sanjoanense e na Sociedade Musical Lyra Lagoense, constam jaculatórias e antífonas que revelam uma profunda compreensão da harmonia e do contraponto barroco.8 Ao mesmo tempo, a produção de sambas-enredos para o Carnaval de Lagoa Dourada demonstra que a família Mariafra soube adaptar-se aos novos tempos, utilizando a música como cronista da história local.13
O Festival Zé do Mato, consolidado desde 2007 como uma das principais festas de manifestação popular da região, serve de vitrine para esse ecletismo. Músicos como Wellington Mariafra integraram as lives do festival durante a pandemia, dividindo espaço com artistas de renome nacional como Gino e Geno, o que elevou a visibilidade dos artistas locais a um nível nacional.18
A persistência da linhagem Mariafra em Lagoa Dourada sugere que a música atua como uma forma de capital cultural que se transmite hereditariamente, mas que também se abre à comunidade. A formação de novos músicos por João Mariafra e, posteriormente, por Wellington e Betinho, criou uma rede de segurança cultural. Filhos e netos de músicos pioneiros, como o mencionado "Miúdo", continuam a integrar as bandas, perpetuando um senso de pertencimento que é raro em sociedades urbanizadas contemporâneas.13
O futuro da tradição Mariafra parece assegurado pela capacidade de inovação das associações atuais. A diversificação em grupos como a "Bandinha do Papai Noel" e a "Orquestra de Viola Caipira" permite que a música atinja diferentes estratos geracionais, enquanto a manutenção do repertório sacro garante a continuidade do vínculo com a fé católica, pilar fundamental da sociedade mineira.13
Em suma, pesquisar sobre os Mariafra de Lagoa Dourada é mergulhar na própria história da resistência cultural de Minas Gerais. Desde as faisqueiras de ouro do século XVIII até as transmissões digitais do século XXI, a família Mariafra e seus aliados construíram um império sonoro que define a alma de Lagoa Dourada. A música, para esse grupo, nunca foi apenas som; foi o fio condutor que uniu rivais políticos, preservou manuscritos de mestres do passado e deu voz a uma comunidade que encontra no brilho de suas clarinetas e trompetes o reflexo de sua própria nobreza histórica.
Referências citadas
Lagoa Dourada - MG, parabéns pelos 114 anos - Notícias | Grifon Brasil, acessado em janeiro 16, 2026, https://www.grifon.com.br/noticias/lagoa-dourada---mg-7540
Trechos retirados do livro: “Lagoa Dourada 300 anos - Síntese Histórica”, autor: Dauro J. Buzatti, acessado em janeiro 16, 2026, https://www.lagoadourada.mg.gov.br/pagina/4583/Hist%C3%B3ria
BANDA DE MÚSICA | culturalagoadourada - Wix.com, acessado em janeiro 16, 2026, https://amandagomes.wixsite.com/culturalagoadourada/sobre-1-c4t2
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cláudio roberto dornelles remião o caso curt lange: análise de uma polêmica - Lume - UFRGS, acessado em janeiro 16, 2026, https://lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/196148/001095623.pdf?sequence=1&isAllowed=y
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Old Mansion and Farms Lagoa Dourada Ecological Hike - YouTube, acessado em janeiro 16, 2026, https://www.youtube.com/watch?v=2VWJB2RkHSs
Fazenda da Cachoeira - Fazendas Antigas, acessado em janeiro 16, 2026, https://fazendasantigas.com/fazenda/detalhes/da-cachoeira-lagoa-dourada-mg
Causos & Cousas - Jornal das Lajes, acessado em janeiro 16, 2026, https://www.jornaldaslajes.com.br/colunas/causos-e-cousas/4
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