A tradição das bandas de música em Minas Gerais representa um dos fenômenos de longevidade cultural mais impressionantes do cenário brasileiro, consolidando-se como um pilar da identidade comunitária, especialmente na microrregião de São João del-Rei e no Campo das Vertentes. Dentro deste ecossistema musical, a cidade de Lagoa Dourada destaca-se pela preservação de um repertório fúnebre de profunda carga emocional e complexidade histórica, cujo centro gravitacional é a marcha intitulada Derradeira Homenagem. Esta peça, executada com solenidade e reverência durante as celebrações da Semana Santa, não é apenas um acompanhamento rítmico para os cortejos religiosos; ela constitui um documento vivo das trocas culturais entre a Europa do século XIX e o interior de Minas Gerais, servindo como o fio condutor que conecta a erudição da escola francesa de sopros à devoção popular mineira.1
A música fúnebre na região mineira ultrapassa a função meramente cerimonial para tornar-se uma estrutura narrativa que organiza o tempo e o espaço sagrados. Durante séculos, a paisagem sonora das cidades históricas foi moldada pela presença constante das bandas, que, através de dobrados, marchas e hinos, pontuavam a vida civil e religiosa. A Derradeira Homenagem, em particular, emerge como um exemplo paradigmático de como obras estrangeiras foram assimiladas, traduzidas e consagradas como patrimônio local. A compreensão desta obra exige um olhar interdisciplinar que abarque a musicologia histórica, a sociologia das organizações musicais e a análise rítmico-litúrgica, permitindo identificar as camadas de significado que transformam uma partitura parisiense em um hino de luto e fé nas ruas de Lagoa Dourada.2
A origem da Derradeira Homenagem remete ao título original Un Dernier Hommage, composta pelo músico francês Ernest Marie. Para compreender como esta obra aportou em Minas Gerais, é necessário analisar o fluxo de partituras que caracterizou o século XIX. Após a chegada da Família Real portuguesa em 1808, o Brasil experimentou uma abertura cultural sem precedentes, facilitando a entrada de músicos, instrumentos e edições musicais europeias. As bandas militares, em especial, desempenharam um papel fundamental na difusão de novos gêneros, incluindo as marchas de inspiração francesa e italiana.2
A escola francesa de música para sopros, ou musique d'harmonie, viveu seu apogeu na segunda metade do século XIX. Compositores como Ernest Marie e Michel Bléger dedicavam-se a escrever para conjuntos de metais e madeiras, criando um repertório que era simultaneamente funcional — destinado a eventos militares e fúnebres — e artístico, dotado de um lirismo romântico que buscava sublimar a dor e a morte.4 Ernest Marie, embora hoje menos citado nos grandes dicionários biográficos sinfônicos, foi um autor prolífico cujas obras eram distribuídas por editoras parisienses renomadas, como a Margueritat, localizada no Boulevard Bonne-Nouvelle.2
Aspecto Histórico
Detalhes da Obra e do Compositor
Título Original
Un Dernier Hommage
Compositor
Ernest Marie
Período de Composição
Século XIX (aproximadamente 1872) 6
Nacionalidade
Francesa
Editora Original
Margueritat (Paris) 2
Gênero
Marcha Fúnebre (Marche Funèbre)
A circulação dessas partituras no Brasil ocorreu principalmente através de catálogos comerciais e do intercâmbio entre mestres de banda que buscavam renovar seus arquivos com o que havia de mais sofisticado na Europa. Em Minas Gerais, cidades como São João del-Rei, Tiradentes, Prados e Lagoa Dourada tornaram-se repositórios dessas obras. A análise de manuscritos encontrados em arquivos como o da Banda Santa Cecília de São João del-Rei e da Lira Ceciliana de Prados confirma que as partes musicais, muitas vezes impressas em papel cartão de pequenas dimensões (17 cm x 13 cm) para serem afixadas nos instrumentos, eram cópias diretas ou adaptações do material francês.2
A peça Un Dernier Hommage é estruturada dentro dos cânones da marcha fúnebre romântica. A escolha da tonalidade de Si bemol menor não é fortuita; na semiótica musical do período, o uso de tonalidades com vários bemóis estava associado à escuridão, ao mistério e a uma gravidade introspectiva.6 Esta escolha tonal confere à obra uma sonoridade "fechada" e profunda, que ressoa de maneira particular nos instrumentos de metal de registro grave, como o bombardino e o baixo tuba.
A estrutura rítmica da marcha é baseada no passo lento e cadenciado, geralmente executado a uma velocidade de aproximadamente 60 batidas por minuto (bpm), o que corresponde ao ritmo de um cortejo solene.5 O uso extensivo do ritmo pontuado (uma nota longa seguida de uma curta) cria uma sensação de hesitação e pesar, evocando o esforço físico e emocional de carregar os esquifes ou as imagens sacras durante as procissões.
A obra apresenta uma forma ternária clássica (ABA), onde a seção principal, em modo menor, é interrompida por um Trio em modo maior. Este Trio, frequentemente em Si bemol maior ou em uma tonalidade relativa, oferece um contraste necessário, trazendo uma melodia mais lírica e consoladora que sugere a esperança cristã na ressurreição.5 Na tradição interpretativa de Lagoa Dourada, este momento é marcado por solos expressivos que permitem aos instrumentistas demonstrar sua sensibilidade e controle dinâmico.
A execução da Derradeira Homenagem exige uma técnica apurada de articulação. Os músicos devem evitar ataques bruscos, buscando uma emissão de som que preencha o espaço sem agredir a acústica das igrejas ou a solenidade das ruas. O bumbo e os pratos desempenham um papel crucial, não apenas marcando o tempo, mas fornecendo uma base harmônica percussiva que sustenta o edifício sonoro da banda.5
A história da música em Lagoa Dourada é marcada por uma organização social robusta que gira em torno de suas agremiações musicais. A prática das bandas de música na cidade é um reflexo das dinâmicas políticas e sociais do século XX, onde a música servia tanto como entretenimento quanto como símbolo de prestígio e resistência cultural.
Relatos orais e pesquisas em arquivos locais indicam que a tradição de bandas em Lagoa Dourada remonta ao início da década de 1910. Naquele período, a cidade possuía duas formações rivais, a "banda de seu Evaristo" e a "banda de seu Abelardo", cada uma ligada a diferentes grupos políticos da época.8 Este fenômeno de dualidade era comum em Minas Gerais, onde a rivalidade entre as bandas estimulava o aperfeiçoamento técnico e a aquisição de novos repertórios.
Com o passar dos anos e o enfraquecimento desses grupos originais, surgiu a necessidade de uma unificação. Em 1934, João Evangelista Bernardes, mais conhecido como João Mariafra, fundou a Lyra Lagoense por solicitação do prefeito municipal.8 Mariafra tornou-se uma figura lendária na cidade, atuando como maestro, compositor, arranjador e professor, formando gerações de músicos que aprenderam a ler e a tocar através de seus ensinamentos. A formalização da Sociedade Musical Lyra Lagoense ocorreu em 1956, consolidando-a como uma associação cultural de direito privado dedicada à preservação da música local.8
O papel de João Mariafra na manutenção da marcha Derradeira Homenagem é fundamental. Como guardião do arquivo musical da cidade, ele foi o responsável por transcrever e adaptar as partituras francesas para a instrumentação específica da Lyra Lagoense. Seu filho, Antônio de Pádua Alves Falcão, em depoimentos colhidos por pesquisadores, identificava explicitamente a obra como sendo de origem francesa, atestando a consciência histórica que existia entre os mestres de banda locais sobre a procedência de seu repertório.2
Além de reger as obras de Ernest Marie, Mariafra foi um compositor de marchas fúnebres de mérito próprio, criando peças que hoje dividem o programa da Semana Santa com os clássicos europeus.
A história das bandas de Lagoa Dourada sofreu uma transformação significativa em 2021. Devido a divergências administrativas e pessoais no seio da Lyra Lagoense, um grupo de músicos, incluindo descendentes diretos de João Mariafra e músicos veteranos como Roberto Luiz Resende (conhecido como Betinho), decidiu fundar uma nova agremiação: a Associação Musical Santo Antônio.9
Este movimento não foi apenas uma dissidência institucional, mas uma reafirmação de laços familiares e tradições que os músicos sentiam estar em risco. A "espinha dorsal" da nova associação é composta por netos e bisnetos de João Mariafra, o que garante a continuidade estilística e a preservação do arquivo original do maestro.9 Wellington Mariafra, neto do fundador e ex-maestro da Lyra, assumiu a liderança musical da nova banda, organizando eventos marcantes como a alvorada em honra a São Sebastião em janeiro de 2021, que serviu de catalisador para a criação da entidade.9
A Associação Musical Santo Antônio rapidamente se integrou ao calendário cultural de Lagoa Dourada, participando ativamente da Semana Santa, da Festa de Santo Antônio e de encontros de bandas em cidades vizinhas como Resende Costa e Dores de Campos.9 A execução da Derradeira Homenagem pela nova banda é carregada de simbolismo, representando tanto o respeito ao passado quanto a vitalidade de uma tradição que se renova através das gerações.
A execução da marcha fúnebre Derradeira Homenagem atinge seu ápice durante o ciclo da Semana Santa, um período em que a cidade de Lagoa Dourada se transforma em um cenário de introspecção e drama litúrgico. A música, neste contexto, atua como um agente de "sacralização" do espaço público, transportando os fiéis para uma atmosfera de contemplação do mistério da Paixão de Cristo.
Na Sexta-feira Santa, a Lyra Lagoense (e agora também a Associação Santo Antônio) executa a marcha dentro da Igreja Matriz de Santo Antônio, em momentos de profunda solenidade.1 A acústica da igreja amplifica a sonoridade dos metais, criando uma massa sonora que envolve a assembleia. A Derradeira Homenagem é a escolha predileta para acompanhar o descendimento da cruz ou o início da procissão do Enterro, momentos em que a carga dramática exige uma música de extrema gravidade e nobreza.
A integração da marcha à paisagem sonora é absoluta. Ela coexiste com o som dos sinos dobrando a finados, o barulho seco das matracas que substituem os sinos após a Quinta-feira Santa, e os cantos latinos dos coros orquestrados. Para a população local, a música é inseparável do local e do momento em que é executada. Como observou o maestro Adhemar de Campos Neto sobre a tradição regional, as pessoas identificam a procissão com aquela música específica; qualquer mudança no repertório seria vista como uma violação da tradição esperada pela comunidade.3
A Derradeira Homenagem goza de um prestígio que atravessa fronteiras municipais. Em Prados, a Lira Ceciliana a executa obrigatoriamente na saída da procissão do Depósito de Passos, um momento em que a imagem do Senhor dos Passos deixa a igreja para ser "depositada" em uma capela menor.3 A recepção do público é marcada por um silêncio respeitoso, onde a melodia da marcha serve como oração coletiva.
Curiosamente, existe uma narrativa oral persistente entre os músicos do Campo das Vertentes que vincula esta marcha ao funeral do presidente dos Estados Unidos, John F. Kennedy, em 1963. Adhemar de Campos Neto menciona que a marcha teria sido executada durante o cortejo fúnebre em Washington, o que, independentemente da veracidade documental estrita, reforça a percepção local de que a Derradeira Homenagem é uma obra de relevância universal e superioridade estética.12
A marcha fúnebre, longe de ser apenas uma canção de morte, é em Lagoa Dourada um hino de continuidade social. A morte, dentro da visão de mundo mineira tradicional, é um evento comunitário que exige uma ritualística específica para ser processada. A Derradeira Homenagem fornece o suporte emocional necessário para esse processamento, permitindo que a dor individual seja diluída no luto coletivo.14
A inclusão da Lyra Lagoense no inventário do patrimônio cultural do município em 2007 reconheceu formalmente a importância dessa prática musical.8 No entanto, a verdadeira preservação ocorre no cotidiano dos ensaios e na transmissão do conhecimento técnico. O aprendizado da Derradeira Homenagem é um rito de passagem para os jovens músicos; dominar a dinâmica piano e os solos expressivos da peça significa que o músico está pronto para servir à sua comunidade nos momentos mais solenes.
A longevidade da obra de Ernest Marie em Minas Gerais, enquanto em seu país de origem ela caiu no esquecimento, é um fenômeno que fascina musicólogos. As bandas de Lagoa Dourada funcionam como "museus vivos", preservando uma estética do romantismo europeu que foi adaptada à sensibilidade brasileira.2 O trabalho de editores e pesquisadores locais, como Rosberg do Patrocínio, que digitalizou a partitura e a disponibilizou em plataformas globais como o IMSLP, é fundamental para garantir que este legado não se perca com o desgaste físico dos manuscritos antigos.6
A análise dos arquivos musicais das bandas do Campo das Vertentes revela uma rede de influências e trocas que sustenta a tradição. Embora cada cidade tenha suas peculiaridades, o núcleo do repertório da Semana Santa é notavelmente estável, composto por obras que resistiram ao tempo e às mudanças de gosto musical.
Esta tabela demonstra que a Derradeira Homenagem é a "coluna vertebral" do repertório regional. A recorrência da obra em diferentes cidades indica que ela atingiu o status de um "clássico" da tradição de banda mineira, sendo reconhecida instantaneamente pelos ouvintes e respeitada por todos os regentes.
Apesar da solidez da tradição, as bandas de Lagoa Dourada enfrentam desafios contemporâneos. A manutenção de instrumentos caros, a necessidade de captar recursos através de leis de incentivo e a competição com formas modernas de entretenimento exigem uma gestão profissional das associações. O Festival Zé do Mato, realizado anualmente em Lagoa Dourada, tem se mostrado uma vitrine importante para a visibilidade dos talentos locais e para o intercâmbio com músicos profissionais, ajudando a manter viva a chama da música instrumental no município.17
A criação da Associação Musical Santo Antônio trouxe uma nova energia para a cena local. O foco no resgate de marchinhas de Carnaval e sambas populares, aliado à execução rigorosa da música sacra, demonstra uma versatilidade que é essencial para a sobrevivência das bandas no século XXI.9 A valorização de compositores locais, como os tributos recentes a Wellington Mariafra, mostra que a comunidade está atenta à necessidade de homenagear seus próprios "gigantes" da música.9
A marcha Derradeira Homenagem é mais do que um artefato musical; é um símbolo de resistência cultural. Nas mãos dos músicos de Lagoa Dourada, a obra de Ernest Marie transcendeu sua origem francesa para tornar-se uma expressão autêntica da alma mineira. Através de sua melodia grave e de seu ritmo persistente, ela continua a narrar a história de uma comunidade que se recusa a esquecer seus mortos e suas tradições.
O legado de João Mariafra e a dedicação das novas gerações de músicos na Lyra Lagoense e na Associação Santo Antônio garantem que, a cada Sexta-feira Santa, o som da Derradeira Homenagem ecoe pelas ruas, reafirmando que a música é a linguagem final da memória e do afeto. A preservação deste patrimônio é uma tarefa coletiva que envolve músicos, pesquisadores e a própria comunidade, assegurando que Lagoa Dourada permaneça como um dos centros mais vibrantes da música tradicional brasileira.1
Referências citadas
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Uma Derradeira Homenagem (Marie, Ernest) - IMSLP, acessado em janeiro 16, 2026, https://imslp.org/wiki/Uma_Derradeira_Homenagem_(Marie,_Ernest)
Derradeira homenagem - Lira Lagoense - YouTube, acessado em janeiro 16, 2026, https://www.youtube.com/watch?v=IZDXkJghDs4
BANDA DE MÚSICA | culturalagoadourada - Wix.com, acessado em janeiro 16, 2026, https://amandagomes.wixsite.com/culturalagoadourada/sobre-1-c4t2
Lagoa Dourada: a família que criou e mantém a Associação Musical ..., acessado em janeiro 16, 2026, https://www.jornaldaslajes.com.br/integra/lagoa-dourada-a-familia-que-criou-e-mantem-a-associacao-musical-santo-antonio/4303
Marcha Fúnebre nº1 (Rasoura de Dores) - Associação Musical Santo Antônio - YouTube, acessado em janeiro 16, 2026, https://www.youtube.com/watch?v=voMEzhjJ98w
Marcha Fúnebre Nº 06 - YouTube, acessado em janeiro 16, 2026, https://www.youtube.com/watch?v=4XiZvnHEb28
Marchas fúnebres das bandas de música da microrregião de São João del-Rei - Repositorio UFMG, acessado em janeiro 16, 2026, https://repositorio.ufmg.br/bitstreams/3cb1eee9-51a3-4a82-aed6-e5c248ba62a3/download
Musicologia Histórica nas Vertentes | PDF | Museologia | Teoria - Scribd, acessado em janeiro 16, 2026, https://pt.scribd.com/document/417908429/Anais-de-musicologia
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